InforCEF - jornal escolar do Centro de Estudos de Fátima -
nº 39, Dezembro de 2003
Acto único
Sim; vamos assumir que é um exercício, pois os alunos
estão em processo criativo. Estamos a explorar a linguagem corporal, a sua
relação com o objecto, com o espaço, com o texto enquanto elemento orgânico
e fluido que aparece como complemento e parte integrante da expressão
corporal. Daí, estarmos a trabalhar um monólogo a várias vozes, um texto que
fala da vida, da morte, do amor…
O que pensam os Actores

Acto
Único é um exercício espectáculo.
É
uma reflexão sobre o tempo, as escolhas que fazemos ao longo da vida e suas
consequências, para construir um percurso, dar um sentido à vida, tendo
sempre presente que… o tempo é um grande escultor (M. Yourcenar).
Eu
gostei muito de fazer este "Acto Único"; foi único, não só pela sua dimensão
artística, mas também pela experiência que adquiri a trabalhar este texto.
Desenvolvemos a relação entre nós, com os objectos, o texto e o silêncio.
Gostei muito.
Gostei muito do texto, da relação apresentada por ele, entre a morte o amor. Acho que esta peça de teatro tinha muito simbolismo, devido aos seus movimentos. A forma como trabalhámos o texto e nos relacionámos com ele foi importante, pois mostrámos que pode ter uma interpretação diferente em cada indivíduo.
(Marissa Oshige, 11ºG)
Como
pessoa, acho que a peça de teatro que representámos no Cine-Teatro de Ourém
me ajudou a crescer bastante. Ajudou-me a ter mais confiança nos outros e em
mim mesma. Ajudou-me a ter mais convivência com outras pessoas e também me
ajudou a aprender a lidar com certas situações. Como aluna de teatro, acho
que todos estes momentos e a peça em si me ajudaram a ter noção daquilo que
sou capaz de fazer. Como aluna de teatro e como pessoa, ajudou-me a
desenvolver o meu sentido estético, cultural e crítico. Adorei e quero
repetir.
Não terá sido tão espectacular como outros... "espectáculos" realizados pelo CEF e poderá ter mesmo "desiludido" quem aguardava, ou exigia, um produto sensacional com a intervenção da nossa escola no Cineteatro de Ourém.
Não foi assim. A exibição do Grupo de Teatro do CEF, nas noites do dia 21 e 22 de Novembro, surpreendeu o auditório com a representação, tão difícil como profunda, de uma alegoria da existência humana no seu emaranhado de momentos altos e de outros... menos elevados, ou mesmo, frequentemente, de queda. Pode ter outras leituras, mas parecia estar bem explícita a ideia que o levantar, o retomar o caminho, o persistir no difícil "ofício de viver", como escreveu Cesare Pavese, é que marca a verdadeira identidade do ser humano, no seu atormentado devir quotidiano.
Quem não gostou não terá provavelmente compreendido esta mensagem e a escolha de um tema diferente do dos outros espectáculos encenados nas edições do CENOURÉM, e terá desaproveitado uma ocasião de ouro para saborear o fragor do silêncio, muito mais estonteante, quando obriga a questionar o sentido da vida, do que o barulho e os aplausos do teatro que entronca no sulco da tradição de Molière ou Goldoni.
Sem a dimensão intrigante das peças do Teatro do Absurdo – Ionesco, Arrabal ou mesmo Brecht – Acto Único foi um convite a descer do carrocel alucinante que vivemos no frenesim dos afazeres diários para entrar num oásis de reflexão, percorrendo livremente os horizontes do pensamento, como num deserto, até ao infinito.
Por vezes, é preciso ter a coragem de propor horizontes mais elevados e "obrigar" espectadores habituados sempre ao mesmo alimento a experimentarem outros sabores, a irem por outros caminhos, a viverem outras aventuras! (Fp)