InforCEF - jornal escolar do Centro de Estudos de Fátima - nº 39, Dezembro de 2003


Gente nossa

Rui RIBEIRO, sj

Quando eu for grande….

Quando eu for grande gostava de ser aluno! Esta frase disse-a eu muitas vezes aos meus alunos, a rir e a brincar, quando passava por eles no pátio do recreio e os via refastelados ao sol que nem lagartos, nos dias solarengos de Primavera.
Pois é… fui professor de Educação Física no C.E.F. durante quatro anos. Foi uma das experiências mais maravilhosas que fiz na vida!
Porquê? Porque me deixei fascinar pelos alunos, porque aprendi a maravilhar-me com aquilo que cada um tem de mais genuíno, cristalino e belo para além de todas as patifarias que pudessem fazer, porque dei conta que tinha muito a aprender com eles, porque me permitiram libertar a criança que há em mim: pude correr, brincar, rir, jogar, saltar, chorar, cantar, fazer figuras tristes, enfim… pude ser mais eu!
Mas no C.E.F. não existem só alunos… pude testemunhar a dedicação e a paciência dos funcionários, recordo com carinho a alegria dos colegas professores: ainda me lembro bem das gargalhadas na respectiva sala, da azáfama nos corredores ao toque da campainha, do cansaço e saturação dos finais de período e das reuniões de notas…E que nos bastidores existem pessoas movidas por um ideal em cujo centro estão os alunos!
Tive muito gosto em pertencer a uma escola que está atenta às dificuldades dos alunos, que se desdobra em estratégias, que faz um esforço imenso para conseguir recursos humanos e técnicos para os ajudar.
Estou agora a imaginar uma daquelas alunas pequenitas com a curiosidade à flor da pele a perguntar:
- Mas se agora não és professor, então o que é que fazes?
- Faço aquilo que sonhava fazer quando era professor… estudo! Sou aluno. É verdade! Mal sabia eu que quando brincava com os alunos lhes estava a dizer grandes verdades.
E a pequenita continua curiosa:
- Mas se estavas a gostar de ser professor, porque é que mudaste?
- Porque um dia conheci um Professor com quem fiz uma grande amizade. E desde logo comecei a ver que era um Professor muito especial… mostrou-me que gosta de mim como ninguém, aceita-me tal como sou; dei conta que Ele me conhecia melhor que eu próprio; disse-me que estava ansioso para me ensinar muitas coisas; e um dia convidou-me para um trabalho de grupo muito importante: falar de Deus às pessoas e dedicar a vida a ajudar aquelas que necessitarem. Convidou-me para fazer o que Ele fez, para ser como Ele…
- Ah! Mas esse professor é Jesus!!! – diz a pequenita saltando de espontaneidade.
- Pois é! Jesus fez-me o desafio, eu vi que isso ia dar muito sentido à minha vida e então… eu disse que sim! Aceitei ser aluno D’Ele e fiz um compromisso que é para toda a vida.
- E não tiveste medo de mudar assim de vida, deixar de ser professor, afastar-te dos amigos, da família? Continua a perguntar a pequenita, com cara de quem não entende muito bem…
- Tive algum, principalmente porque achava que não ia ser capaz, mas o meu Professor disse-me que não tivesse medo porque ia estar sempre comigo, e dar-me sempre a força e a coragem necessárias para o que fosse preciso… então fiquei descansado e caminhei em frente.
Sem perder a persistência, continua a pequenita a tentar entender…
- Então mas o que é que tu és agora?
- Sou Jesuíta! O que é isso? É ser alguém que pertence a uma ordem religiosa – a Companhia de Jesus, uma grande família, outros homens como eu (somos 21.000 no mundo inteiro) que aceitaram o convite de Jesus. Neste momento estou em Braga a estudar Filosofia para um dia… quando for grande… poder vir a ser padre e continuar a ser aluno. Sim, porque posso dizer que é maravilhoso ter um Professor assim. Foi a melhor coisa que me aconteceu na vida! Com Ele aprendi que apesar de ter 34 anos nunca é tarde demais para aprender, estamos sempre a tempo de procurar e encontrar o que nos faz verdadeiramente felizes.
Quando eu for grande… quero continuar a ser aluno d’Ele, a escutá-Lo, a fazer o que me pede para fazer, porque confio n’Ele e sei que o que me ensina é o melhor para mim.
Quando eu for grande… gostava de ser capaz de mostrar às pessoas que o Professor meu amigo está desejoso de ser amigo de cada um de nós, está desejoso de ensinar cada um a ser profundamente feliz e a dar um sentido profundo à vida… se estiver atento e for participativo nas aulas d’Ele.
Quando eu for grande… quero ser um aluno com fraca memória… para me esquecer de mim e poder lembrar-me mais dos outros.
Quando eu for grande… quero ser um aluno que não se fica só com o que aprende nas aulas teóricas, quero ser capaz de pôr em prática o que o Professor me ensina: dizer a verdade, perdoar os que me ofendem, ser capaz de pedir desculpa, partilhar o que tenho e o que sou com os que mais necessitam, para tornar o mundo um pouco melhor.
Quando eu for grande… quero ter um coração grande, gigante, generoso para ser capaz de gastar a minha vida a falar de Deus e a fazer o bem às pessoas como a Madre Teresa de Calcutá… ela foi uma boa aluna de Jesus, deve ter tido boas notas na disciplina da Caridade…
Quando eu for grande… quero ser aluno d’Ele. O resto da vida!

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