Viajando com os alunos

A bordo do branquinho

Num soalheiro final de tarde de Outubro decidi partir à aventura com o objectivo de saber o que se passa nos «meandros» dos autocarros da nossa escola.

Para tal, dirigi-me ao número 27, que faz o percurso Fátima – Ourém pelas Fontainhas da Serra, com paragens em Murtal, Atouguia (cruzamento), São Sebastião, Melroeira, Ourém (Bombeiros e EPO).

Entrei e detive-me em conversa com o motorista – sr. Francisco Silva –, enquanto ia observando o comportamento dos alunos. Estes eram diversificados: os que entravam pela porta dianteira faziam-no ordenadamente, mas os outros atropelavam-se e empurravam-se. Seria por não passarem junto do motorista?!

Antes de partirmos, o sr. Francisco, através do microfone, ordenou que se sentassem e fez referência à minha presença. Então, apresentei-me e esclareci-os acerca do trabalho que estava a realizar. Aí, começou o nosso diálogo, inicialmente um pouco atribulado, visto que a curiosidade era muita, pois havia alunos de diferentes ciclos (do 3º ciclo ao secundário). Uns perguntavam: – «A professora vai para Ourém? O seu carro avariou-se?». Outros exclamavam e questionavam-se: «Uma professora no autocarro! Que estará a acontecer?». Depois de alguns minutos e esclarecimentos, tudo se acalmou. Enquanto dialogávamos, o autocarro ía parando e deixando os passageiros.

Questionei-os sobre as principais dificuldades sentidas no início do dia. Foram unânimes que o maior problema é a hora de levantar, visto que uma grande parte dos alunos o faz às 6h30m, para poder apanhar o autocarro às 7 horas, isto para ter aulas às 8h45m. Pensei: como podem os professores exigir a estes alunos um bom rendimento escolar?

Perguntei-lhes se tinham alguma proposta, tendo em vista a mudança de tal situação. Então, um aluno do Ensino Secundário respondeu-me: As voltas deveriam ser mais pequenas, mas isso implicaria mais motoristas e mais autocarros! O que não é viável, pois a despesa seria muito grande. A escola já tem uma boa frota! Quem vive mais longe tem de se sujeitar a tal situação, isto é, se quiser ter um ensino de qualidade!...» De um modo geral todos os alunos concordaram. Perante tal afirmação, creio que os nossos alunos têm consciência de que a escola não faz mais porque não pode fazer mais. A minha viagem foi interessantíssima e proveitosa, pois assim tomei consciência do que é o dia-a-dia de alguns dos nossos alunos e compreendi os seus comportamentos e atitudes dentro dos autocarros. Verifiquei que existe respeito e convívio entre eles, facto que me deixou feliz.

Dirigi-me, então, para junto do motorista com o qual travei um diálogo «amigável». Para saber o que pensava o motorista, questionei-o sobre o comportamento dos alunos. Disse-me: «No percurso das 16h30m não há problemas; no das 17h30m há um grupo de alunos de Ourém que é mais agitado, chegando alguns elementos a ser mal-educados».

Para uma melhoria dos comportamentos, o sr. Francisco chama-os à atenção e procura manter a ordem, trabalho difícil, em virtude da concentração que a condução exige.

O que preocupa mais este motorista é a indisciplina e a falta de educação de alguns alunos. Ele acredita que a escola faz tudo o que está ao seu alcance para incutir determinados valores aos alunos mas, diz que "só isso não chega", que a educação deve vir do berço.

À pergunta, se gosta de ser motorista, respondeu-me: "–Gosto, pois conduzir dá-me gozo. Além disso, o convívio com os jovens é saudável, embora haja ocasiões, nomeadamente no final do ano lectivo e, por vezes, nos finais dos períodos lectivos, em que me sinto um pouco saturado".

Relativamente a reclamações de Encarregados de Educação, nunca teve nenhuma.

Resta-me salientar que o percurso de regresso é ligeiramente diferente, depois de São Sebastião o autocarro vem pela estrada de Alvega, onde tem uma paragem para recolha de alunos.

Já no Cef, pelas 17h20m, agradeci ao motorista a colaboração. Assim terminou a minha aventura no 27, o "branquinho do Cef".

Natércia Rodrigues Taxa

Voltar ao Índice