IncêndiosOs alunos do 8ºB introduziram assim, poeticamente, e com uma apresentação em multimédia, a Acção de Sensibilização sobre Prevenção de incêndios dinamizada no dia 22 de Junho, no âmbito da Área de Projecto, em que participaram alunos e Encarregados de Educação do 8º Ano e, como convidados, representantes da Quercus, do Bombeiros de Ourém e um técnico de instalações hidráulicas.
Em Novembro de 2003 deslocaram-se a Ourém para uma visita de Estudo, tendo sido acolhidos nas sedes da Quercus e dos Bombeiros Voluntários deste Concelho. Foi com uma apresentação multimédia e com esta poesia que a acção de dinamização foi introduzida:
Um rastilho de revolta
Esta
foi a entrevista concedida pelo Comandante dos Bombeiros Voluntários de Ourém
Júlio
Henriques, concedeu em Novembro passado a estes alunos
(17
de Novembro de 2003)
Comandante Júlio Henriques: Introdução
É sempre um prazer para nós Bombeiros, ter aqui a comunidade, neste caso, a comunidade escolar, e penso que é importante que as pessoas que estão fora dos Bombeiros conheçam a nossa realidade. Penso que é importante que a Escola venha ter com uma Associação de Bombeiros, que é um caso particular no nosso País, pois como sabem, o Estado não tem Bombeiros, os Bombeiros pertencem a Associações de Bombeiros Voluntários, existem Câmaras Municipais que também têm Bombeiros, mas geralmente os Bombeiros pertencem a entidades privadas. Por isso, é um grande bem que este país tem, de ter ao seu serviço um “exército”, porque não lutamos com armas…, para defesa da vida e dos haveres das populações. Por isso, é importante que todos vós tenham consciência do trabalho que é desenvolvido pelos Bombeiros no nosso país. Aguardo as vossas perguntas…
GRUPO 1 – Conhecer actividade dos bombeiros: sua preparação, formas de intervenção, dificuldades no trabalho, meios de que dispõem…
1 – Quantos voluntários existem no quartel dos Bombeiros?
Em posso indicar um número, que não sendo certíssimo, porque vou dentro de dez dias inscrever mais vinte bombeiros, mas o número ronda as duas centenas – duzentos bombeiros..
2 – O que é preciso fazer para se ser bombeiro? Muito exercício?
O que é preciso… Para entrar, é preciso ter no mínimo 14 anos de idade. Depois, é preciso vir para aqui fazer uma escola de recrutas, pois esta também é uma escola, onde se aprende muitas coisas, para além de saber actuar em situações de alguma dificuldade – incêndios, sinistros – também é preciso ter conhecimentos na área da saúde, para poder socorrer as pessoas quando estão em perigo ou têm alguma doença ou acidente.
3 – Quais são as maiores dificuldades que um bombeiro encontra no seu
trabalho, em geral?
Depende daquilo que vai fazer. Se vai para um incêndio, vai ter dificuldades, porque se o incêndio tiver algumas proporções, se estiver a arder uma floresta, ou uma casa, certamente que irá encontrar dificuldades para poder resolver essas situações. De qualquer forma, tem que estar preparado psiquicamente e materialmente para enfrentar as situações de perigo que encontrar.
4 – No verão passado, enquanto estava a actuar nos incêndios, sentiu
segurança?
A segurança é sempre relativa. Quando vamos para um incêndio, por exemplo, no verão, temos que ter cuidados redobrados, pois – vocês podem não saber – mas os efeitos meteorológicos por vezes são bastante adversas e temos de estar, como se costuma dizer, “com um olho no burro e outro no cigano”: estar com um olho no incêndio e temos que ter também preocupação com as condições meteorológicas, porque os ventos costumam ser bastante traiçoeiros. Pensamos que o fogo está a caminhar numa direcção, e eventualmente, com a mudança de vento, poderá cercar os bombeiros e a situação pode tornar-se bastante complicada. Temos que ter muito cuidado em situações de incêndio…
5 – No verão passado, quantas vezes saíram para apagar incêndios?
Puderam responder a todas as chamadas que receberam?
Felizmente, o nosso concelho – falo agora exclusivamente pelo Concelho e Ourém – o nosso Concelho não foi muito fustigado pelos incêndios florestais. De qualquer formal o Corpo de Bombeiros, respondeu a todas as chamadas para que foi solicitado e não deixou nenhum incêndio por atacar.
6 – Os Bombeiros de Ourém têm meios suficientes para o seu trabalho?
Viaturas, equipamento…?
As viaturas são suficientes; os equipamentos é que não. Tivemos bastantes dificuldades em termos de equipamentos e segurança para os bombeiros. Como sabem, os equipamentos individuais também com muita dificuldade se estragam nos incêndios e há que ter sempre o cuidado de fazer a sua substituição. Mas as dificuldades financeiras no mercado desta natureza são muito grandes e por vezes não há capacidade de resposta em termos financeiros para se repor de imediato os equipamentos individuais. Mas quanto a viaturas, por enquanto ainda são suficientes.
7 – Sempre no verão passado, quais foram as maiores dificuldades que
encontraram no trabalho de combate ao incêndio? – Puderam abastecer facilmente
as viaturas?
Ainda voltando à resposta anterior, o grande problema que surgiu este ano foi o calor. Tivemos temperaturas muito elevadas, o que dificultou a actividade dos bombeiros e, por outro lado, facilitou que se propagassem com maior rapidez. Em termos de abastecimento de viaturas, ou aquilo que nós utilizamos com maior frequência, que é a água, o nosso Conselho, como sabem, tem essa facilidade de ter capacidade subterrânea, lençóis de água bastante grandes que não tem preocupado… Os meios aéreos também puderam actuar, dado que temos pontos de abastecimento de água também para eles poderem trabalhar no ataque aos incêndios.
8 – Para além de apagar incêndios, que outras actividades é que os
Bombeiros realizam?
Para além dos incêndios, temos também o fogo e a emergência médica, ou seja aquilo que os Bombeiros fazem com os equipamentos da ambulâncias: socorrer as pessoas quando precisam de ir para o hospital, ou em situações de acidentes, etc.
GRUPO II – Conhecer extensão da Área ardida
1 – Qual foi a
área ardida no Concelho de Ourém devido aos incêndios do verão passado
Este ano rondou os 500 hectares. Sabem quanto é um hectare… Multipliquem 500 x 10.000 e logo vêem quanto é que dá.
2 – Qual foi a
freguesia – ou as freguesias – mais afectadas?
Não temos esses dados, porque os nossos sistemas informáticos ainda não conseguem dar resposta por freguesias. Temos uma ideia, da evolução, baseada nas zonas para onde nos deslocámos com maior frequência, mas foi a freguesia de Nª Sª das Misericórdias e a Freguesia de Alburitel.
3 – É verdade
que receberam telefonemas a avisar que o Concelho não escaparia aos incêndios?
Não, não é verdade. Nunca nos chegou qualquer informação desse tipo aqui aos Bombeiros. Realmente, correu essa informação, por aí, na população, dizendo que o Concelho seria fustigado por uma vaga de incêndios; felizmente isso não ocorreu, mas nós, Bombeiros, não recebemos qualquer chamada ou informação que viesse a pôr-nos de aviso sobre essa situação.
GRUPO III – Conhecer as causas, as consequências e apontar soluções para o desastre ambiental e florestal ocorrido no verão passado
1 – Quais as
principais causas dos incêndios do verão passado?
A nossa perspectiva relativamente aos incêndios, leva-nos a concluir a grande maioria são fogos de origem criminosa. Não quer dizer que não haja também alguma negligência nas pessoas que, não fazendo caso dos avisos que lhes são transmitidos, quer por nós, Bombeiros, quer pela comunicação social, não tomam as devidas precauções, não fazem a limpeza devida à volta das suas casas, deixam as matas também mal cuidadas, e tudo isso, conjugando todos esses factores, proporciona que os incêndios tomem às vezes proporções dantescas e que dificultam em muito a nossa acção.
2 – Quais são
as consequências para os animais, as pessoas. Houve bens afectados – por
exemplo, casas que arderam?
As consequências são muito graves. Para o meio ambiente, pois um incêndio é uma combustão, com libertação de calor e de gases, que vão para a atmosfera, especialmente o monóxido de carbono, que vocês certamente sabem o que é, o que vai influenciar, e tem influenciado – certamente os vossos professores já vos falaram disso – têm influenciado as condições do clima a nível mundial. Todas essas formas de gases que vão para a atmosfera, sobretudo dos carros, causa algum transtorno do meio ambiente. Para além desse facto, é também o facto de ter ardido aquilo que faz falta, que é o verde da nossa floresta, que faz a regeneração do ar, do oxigénio, e tudo isso nos faz falta. Por tudo isso, os fogos são sempre uma calamidade com efeitos não só para o meio ambiente, mas sobretudo para as pessoas que vêem os seus haveres ardidos, as suas casas, barracões, alfaias agrícolas, e também os animais que morrem devido à acção do próprio calor.
Felizmente, nos incêndios do Verão passado, nenhuma casa ardeu. Só um ou dois barracões, mas não foi relevante…
3 – Quais
foram as árvores ou arbustos que mais arderam?
Aqui na nossa zona, como sabem, praticamente 50% da nossa área – que tem cerca de 20 km2 – praticamente metade é formada por área florestal, onde abunda o pinheiro bravo e também o eucalipto. Mas, as maiores áreas que arderam foi mais de mato, nas freguesias, como disse, de Nª Sª das Misericórdias e de Alburitel. Para além disso, também algumas áreas, não muito grandes de pinhal e eucaliptal.
4 – Qual foi a
maior dificuldade que tiveram para controlar os fogos?
A maior dificuldade, por vezes, é não termos os acessos. É quando chegamos aos incêndios não ter acessos para colocar as viaturas, o que vai dificultar depois a acção dos bombeiros, pois como sabem, uma condição de maior relevância para que se possa fazer o combate aos incêndios é termos as viaturas devidamente posicionadas para podermos actuar com segurança e também com eficácia.
5 – Perderam
algum equipamento no trabalho de combate a algum incêndio?
Perder… no sentido que a pergunta tem implícito, não perdemos. Mas estragamos algum material, material individual dos bombeiros, fatos de macaco, agulhas, mangueiras que se queimam, bombas que rebentam com a pressão da água, as agulhetas… há tudo uma panóplia de equipamentos que, devido ao seu uso se estragam devido à acção…
6 – Salvou
algum animal ou pessoa durante o combate a algum incêndio? Pode-nos contar como
foi?
Não, felizmente, porque não foi necessário fazer nenhuma intervenção desse tipo. Mas tivemos algumas situações de perigo, algumas viaturas circundadas pelo fogo e que foi preciso lá ir outros colegas salvá-los…
GRUPO IV – Conhecer as medidas de prevenção e o comportamento que devem ter os populares em caso de incêndio.
1 – Que se
deve fazer para prevenir os incêndios?
Uma das regras fundamentais para que os incêndios não tenham proporções que temos assistido neste país é devido à falta de limpeza que se verifica nas matas. Esse é o facto principal que entendemos que devia ser resolvido é a questão da limpeza.
A questão dos acessos às matas devia ser também uma preocupação das Juntas de Freguesia, das Câmaras e dos proprietários dos terrenos para que facilitassem, ou abrissem os caminhos que dão acesso a essas propriedades e também às matas nacionais, para facilitar a nossa acção.
É também a criação de mais pontos de água que sejam colocados em pontos estratégicos, para que quer as viaturas quer os meios aéreos possam fazer facilmente o abastecimento de água. Como sabem as condutas de abastecimento público não têm nem a força nem o caudal suficientes para poderem abastecer um carro dos bombeiros. Por vezes temos dificuldades em fazer o abastecimento…
2 – Como é que
a população deve agir quando vê um incêndio já iniciado?
Em primeiro lugar será avisar os bombeiros locais. Em segundo lugar será, se possível, estar no local para ajudar os bombeiros a localizar os incêndios. Por vezes, quando chegam a um local, não é fácil para os bombeiros saber qual é o melhor caminho e o mais rápido para chegar ao local a arder. E ajudar os bombeiros, não ficando espectadores, só a olhar para o trabalho que os bombeiros fazem. Algumas vezes a população é bastante indelicada com os Bombeiros, que vão fazer um trabalho de grande mérito: estão lá voluntariamente, vão correr riscos, e às vezes ainda são maltratados, e têm de ouvir bocas que os populares mandam, e que por vezes ferem o próprio bombeiro que está ali a defender aquilo que não é dele. Creio que é dever de todo o cidadão respeitar o trabalho que os bombeiros fazem em prol dos haveres e das vidas das pessoas
3 – Quem deve
sensibilizar as pessoas para limparem as zonas florestais que podem arder?
Em primeira-mão, deve ser a Junta de Freguesia, e depois, subindo no escalão da administração pública, deve ser depois a Câmara Municipal, que é primeira responsável pela Protecção Civil. Daí que tenha a grande responsabilidade nessa matéria. Devem ser, pois, as entidades públicas, que devem sensibilizar as pessoas para prevenirem os incêndios.
4 – O que é
que todas as casas situadas perto dos montes deveriam ter, como equipamentos,
para poderem impedir que um incêndio iniciado possa tornar-se maior e alastrar?
Que equipamentos deveriam possuir?
Numa casa, essencialmente, cada habitação deveria ter um extintor. Logo numa primeira acção deve-se utilizar esse meio, que é um meio de intervenção, que dá para qualquer tipo de situação. Por exemplo, na lareira: imaginemos que se faz lume, a lareira começa a arder porque não foi limpa, e o extintor resolve uma situação de emergência como esta. Ou então, imaginemos que se acendeu o lume para fazer o comer, a mãezinha tem de sair por uma razão qualquer, deixando o lume aceso…, mas se começa a arder, e se tiver um extintor à mão de semear, também resolve logo o problema.
GRUPO V – Receber sugestões e opiniões sobre o trabalho que as escolas fazem ou podem fazer para prevenir os incêndios
1 – Acha que
vale a pena o trabalho realizado nas escolas e que esse trabalho dá resultado?
Eu penso que este trabalho, este trabalho que vocês estão aqui hoje a fazer – isto também é trabalho, é sensibilização – penso que é importante. Vocês, sendo mais novos, podem ter outra sensibilidade, para depois de ouvirem aqui estas explicações nos Bombeiros, chegarem às vossas casas, falando com os vossos pais, com os vossos avós, dar-lhes algumas informações e conselhos sobre os cuidados a ter quando se usa o fogo.
Não devemos porém transformar, ou confundir um fogo com um incêndio. Um incêndio é um fogo descontrolado no tempo e no espaço – esta é uma definição de incêndio. Daí que o fogo bem utilizado é bom, é útil. Não se pode é não estar atento às consequências que um incêndio pode provocar em todos nós, e vocês são peças fundamentais na prevenção dos incêndios. É levarem esta mensagem a todos os vossos amigos, a todos os vossos colegas, aos vossos pais e à vossa comunidade. Isso é que era bom, porque evitava-se assim os prejuízos causados pelos incêndios e o trabalho dos Bombeiros. Só nos limitaríamos a fazer outras acções, mais úteis, em vez de andarmos a apagar fogos que são um flagelo.
2 – Enquanto
bombeiro, o que faz para sensibilizar as pessoas acerca dos problemas que os
incêndios provocam?
Nós, bombeiros, a nossa participação física é já no fim da linha, porque nós só actuamos quando já tudo falhou a montante, isto é quando tudo falhou para cima. Ou seja, quando a prevenção, quando a sensibilização, quando realmente não há limpeza da floresta, quando as pessoas já não têm os cuidados que deveriam ter…, quando isso falha tudo, cá estamos nós para fazer o resto. Às vezes já não conseguimos fazer nada, porque quando chegamos já está tudo destruído pelo fogo. A nossa função é tomar parte nessas acções, que vocês referem, mas fora disso, estamos bastante limitados. Não quer dizer que a Associação dos Bombeiros não possa levar também a efeito acções de sensibilização. Mas penso que também deve mais chamar à responsabilidade as autoridades locais… Os Bombeiros são voluntários, cada um tem a sua profissão, eu tenho a minha, e não podemos estar a fazer aquilo que é obrigação de outras entidades.
3 – Queríamos
terminar informando que temos intenção de organizar um Debate na nossa escola,
sobre este tema, ao fim do ano, e que será aberto a quem quiser participar.
Desde já os Bombeiros Voluntários de Ourém estão convidados para esse debate e
gostaríamos de lhe perguntar se tem alguma sugestão a dar-nos para a organização
desse debate…
A
sugestão que eu fazia, era na verdade, tentar mobilizar o maior número de
pessoas poss
Ível, para que vocês tivessem oportunidade de dizer a essas pessoas que devem ter cuidado, que devem usar todos os meios para que os incêndios possam ser evitados. É esta a grande preocupação dos Bombeiros. E certamente, também convidar outras pessoas que possam dar a sua opinião sobre esta temática dos fogos, dos fogos florestais e as formas de intervenção dos Bombeiros.
Conclusão
Para terminar, quero agradecer ao Centro de Estudos de Fátima, o CEF, aos vossos professores aqui presentes, a oportunidade que me deram aos bombeiros de Ourém, estarem aqui a falar convosco, e eu gosto muito de falar – acho que sou um comunicador – e gosto de falar com todos vós, jovens e isso dá-me uma grande alegria. Também porque tenho aqui perto – pode ser estranho, como é que os bombeiros de Ourém conseguem trazer para o seu seio tantos jovens – mas eu tenho na Escola de recrutas, dos 14 aos 22 anos, perto de sessenta… que eu chamo “miúdos”. E é verdade. Isso dá-me uma grande alegria.