Andorinhas e pardalitos rumo ao sul

 a caminho de Myrtilis...

 

O relógio andava pelas oito. O dia, esse, nem deslumbrava ...nem desanimava de todo! Os pardalitos e as andorinhas íam chegando, a pouco e pouco, para voarem para sul. Em pequenos grupos: saltitantes, riam, corriam, gritavam, gargalhavam, falavam alto, pegavam nos sacos, arrumavam os aparelhos de música, acarinhavam o telemóvel - essa jóia que os prende à terra, aos pais e aos amigos. E, ali mesmo em Fátima, alguns já começavam a ligar para os papás, para ouvir as últimas recomendações e conselhos e enviar e receber os últimos beijos.

Pelas oito e um quarto partimos para o sul conduzidos pela experiência e saber dos senhores Augusto Lains e Francisco Silova. Tomámos a A1 até Santarém, depois passámos por Almeirim, Coruche [uma paragem forçada junto de um mercado de lenha, porque o Rui, um alentejano tranquilo de Odivelas, ía mal disposto]. Estrada fora ...até Montemor-o-Novo. Mais à frente ficava Évora, Portel, Vidigueira, Beja e por fim Mértola à vista, a bela Myrtilis dos romanos. O relógio marcava as 13.15. A viagem foi calma. E o Alentejo acolhia-nos verde e branco, com tons de azul e ocre.

Mas, se há horas importantes... as das refeições devem ser sagradas. E o povo, que não era tão pouco como isso foi procurar maneira de enfrentar a «negra». Restaurantes, cafés... todos os lugares foram bons e tudo serviu para a combater.

Por volta das 15.00h começou a maratona cultural: primeiro foi necessário dividir o grupo, pois os espaços não comportavam uma centúria de vândalos do Norte. O primeiro foi o Museu Islâmico (espaço rico em cerâmica árabe de outros séculos. Uma guia competente introduziu os neófitos no mundo árabe de outros tempos, mas ainda presente pelo Alentejo e Norte de África). Seguiu-se o Museu de Arte Sacra, rico em imaginária (em madeira) dos séculos XVI e XVII, recolhida em capelas e igrejas do concelho de Mértola. A pintura também estava contemplada no espaço que foi antiga igreja paroquial, pertencente à Santa Casa da Misericórdia. Depois da arte sacra foi a arte e os utensílios deixados pelos romanos na bela MYRTILIS do Guadiana. Terminadas estas visitas há que subir ao castelo situado bem lá no alto do monte, entre Guadiana e ribeira de Oeiras. Na subida, ao longo da muralha ainda houve tempo para espreitar a loja do último ferreiro de Mértola (sr. Brito). Lá ao fundo o rio e a ribeira e mais distante o velho convento de São Francisco, meio disfarçado entre as árvores e o mato.

Visita ao castelo: um mundo para ver e olhar. Bem restaurado, escavações na alcáçova e subida à torre de menagem. Ao longe descortinava-se o mundo rural alentejano, verde de ervas e matos. Descida até junto da velha mesquita árabe, agora transformada em igreja católica. Infelizmente não foi possível visitá-la, pois estava fechada (parece que o IPPAR não pagava ao guia!).

Momento de pausa e descontracção. Há que combinar horários e ir pensando no jantar e na dormida. A invasão fazia-se sentir na pequena e aconchegada vila alentejana. Barulho, conversas... jantar livre. Depois , depois pelas 22.00 horas há que juntar as tropas para arrumar as bagagens na residencial Beira Rio e no Clube Náutico... os que foram dormir aos montes (das Amendoeiras e do Vento) juntaram mobília e bagagem no autocarro do sr. Augusto Lains. Como era sábado .. não podia faltar a saída nocturna. Sobre esta, o repórter abstém-se de relatos e comentários, pois recolheu-se cedo, visto que o cansaço e o sono o fizeram recolher, logo pela meia-noite.

Domingo de manhã, pelas 9.30h lá estávamos todos (digo, os urbanos, pois os rurais tinham um trajecto diferente) no largo do Café Guadiana e do Mercado. Pequenos almoços tomados, olhos meio mortiços, mas o dia estava tão deslumbrante que não era possível não sentir a alegria que um sol e um céu azul oferecem gratuitamente. Por volta das 10.00 h partimos na direcção das Minas de São Domingos. Atravessado o Guadiana, deu para ver a harmonia e a brancura da velha Myrtilis cercada pela muralha antiga e escura.

Directos a S. Domingos, esperáva-nos, à entrada, uma lagoa na ribeira de Chança. Visita ao Museu das Minas de São Domingos, o velho teatro e cinema que durante décadas foi espaço de lazer e convívio dos muitos mineiros que trabalharam naquelas minas de cobre. Deixado o museu, seguiu-se uma visita ao abandonado complexo mineiro, acompanhados por um velho mineiro que atenciosamente deu as informações e as explicações necessárias para uma melhor compreensão do que foi a grandeza daquelas terras em outros tempos.

Feitas as visitas e colocadas as perguntas, há que continuar a viagem, que se faz tarde, em direcção a Beja. Passámos ao lado da terra do «queijo de Serpa», mas não parámos. Chegámos a Beja eram 14.00 horas. A ordem foi: dispersar pela cidade e procurar almoço. As tropas tinham agora a tarde por sua conta para visitarem, comerem, conversarem... a hora da concentração ficou marcada para as 16.00 h. Visitada, descontraidamente, a suave Pax Iulia matou-nos a fome e ofereceu-nos tempo e espaço para a descontracção e a cultura.

Às 16.40h deixámos Beja rumo ao CEF, onde muitos pais já aguardavam os pardalitos e as andorinhas. Para muitos - pais e filhos - era como se se tivessem passado largas semanas ou meses...

No finalzinho, todos olhámos para trás, para o tempo e para o espaço, e vimos que tinha sido muito bom.

 

jj-a 

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