Eles, se quiserem, também podem voar...

Professora Julieta Nunes de Figueiredo
Num momento em que também as saídas profissionais parecem estar em crise, em que os estudantes que pretendem ingressar em cursos superiores muitas vezes não o conseguem ou, se o conseguem, dificilmente ingressam no mundo do trabalho, há que valorizar cada vez mais os cursos tecnológicos, pois é aí que alguns dos nossos alunos descobrem as suas potencialidades ou até mesmo reais vocações... Há vezes em que nos surpreendemos com aquilo de que são capazes...
Quatro turmas, um mesmo conteúdo: técnicas de realização de entrevista. Realizaram-se entrevistas. Trabalhos razoáveis, mas nada de transcendente, nada revelador do empenho que é necessário para que surja um trabalho realmente bem feito.
Mas eis que... Nuno, ainda lhe falta muito para concluir o seu trabalho?; Um bocadinho, s’tôra. Ainda não concluí as questões a colocar, mas já me pode ir corrigindo estas.; Nuno, então o seu trabalho?...; Ó s’tôra, já entreguei as perguntas ao meu pai para ele responder...; Nuno, na próxima aula, quero o seu trabalho em cima da minha secretária para avaliar!; Tá bem, s´tôra.; Nuno, hoje é o último dia!; Ó s’tôra, só falta colar aqui uma coisa.; Vocês são sempre os mesmos... Valeu a espera!
É verdade que o trabalho foi corrigido, mas surpreendentemente estava tudo tão perfeito que fiquei realmente envaidecida como se, de alguma forma, tivesse contribuído para aquele resultado.
O Nuno é aluno do terceiro ano do Curso Técnico Auxiliar de Informática – Nível II (9.º H) e fez uma entrevista que faz sentir vontade de voar!...

1- O seu primeiro sonho de infância era seguir uma carreira militar?
R: Não me lembro de ter tido, na minha infância, nenhum sonho especial. O que sempre tive foi um gosto especial por novas tecnologias e sistemas tecnologicamente avançados. A Força Aérea podia proporcionar-me tudo isso, daí a minha opção.

2- Que outros sonhos tinha para além desse?
R: Como já disse, não tive sonhos. Tive sim vontade de aprender muita coisa, entre as quais música, electrónica...3- Há quantos anos trabalha na Força Aérea?R: Trabalho há cerca de 23 anos.

4- Quais são exactamente as funções que desempenha?
R: Sou mecânico de E.C.S ( Envirmental Control System) e Lox (Liquid Oxygen System) no avião F-16 A/B.

5- Já alguma vez se viu obrigado a socorrer ou preparar algum avião em perigo?
R: Os aviões de guerra contêm os perigos relacionados com os produtos que transportam. Assim, sempre que estamos a fazer trabalhos de manutenção, o perigo existe. Por isso, é necessário ser rigoroso e cuidadoso, respeitando, rigorosamente, as regras de segurança.

6- Há, na sua vida profissional, algum episódio/ experiência mais marcante?
R: Há vários. Durante a guerra no Kosovo, os aviões F-16 deslocaram-se para uma base americana na Itália com o intuito de apoiar a NATO nesse conflito. Junto com os aviões, foi uma vasta equipa de mecânicos, entre os quais eu me incluía. Todos os dias, bem cedo, entrávamos na base pela “porta de armas”, onde era verificada sempre a nossa identidade. Já tínhamos reparado que existiam nomes nos cartões de identificação que não estavam completamente correctos, mas não ligámos. Um dia, muito cedo, lá fomos de novo; o polícia americano era dos implacáveis, verificou a nossa identidade com o máximo rigor, detectou o erro nos cartões e não nos deixou entrar. Estivemos retidos três horas. A incorrecção era a troca de alguns “as” por “os”.

7- Qual é a sensação de andar de avião?
R: Gosto de reparar os aviões, não me fascina viajar neles. A visibilidade é praticamente nula, por isso a sensação é de indiferença.

8- Já alguma vez andou num caça?
R: Não, embora já tivesse tido oportunidade. Prefiro viajar de helicóptero, porque existe ampla visão para o exterior.

9- Já participou alguma vez em missões em outros países?
R: Sim.

10- Quais?
R: Alemanha, Inglaterra, Estados Unidos, Holanda...

11- O mundo está em guerra e a Força Aérea, vê-se frequentemente “empurrada” para conflitos. Que mensagem gostaria de deixar aos “Senhores da Guerra”?
R: Gostava de lhes dizer para parar e pensarem nos que sofrem, mas reconheço que eles não quereriam ouvir, uma vez que a economia dos seus países vive muito à custa da guerra.

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