Uma Europa maior: e um enorme pontapé no fundo das calças

Prof. Armando M. Silva

Mapa publicado na edição portuguesa da Revista National Geographic - Maio de 2004

Pois sim, a União Europeia alargou-se! Houve festa e foguetório por aquelas bandas agora predominantemente transmediterrânicas. Discursos, abraços e beijos entre homens políticos. Reticentes uns, eufóricos outros, mesmo que o folar do padrinho seja agora muito mais magro que no tempo da nossa festa. Na Biblioteca do CEF fez-se uma louvável e colorida acção pedagógica para a nova e alargada multiculturalidade. Mas fica a questão dos fundos.

Para nós educadores e educandos, fica, também, a questão dos fundos – mas mais a do fundo das calças. Porque apanhámos um enorme pontapé. Um daqueles que duram, dão no osso, e farão com que a vida escolar em Portugal nunca mais seja a mesma. A não ser que queiramos passar a pedintes ou a parvos herdeiros das magras poupanças dos nossos pais ou das facturas que deixarão por pagar!

Vai doer, vai ser duro, vai dar muito que fazer. Vejamos, por via comparativa. A nossa taxa de abandono escolar precoce, em 2003, registou 41,1%; a deles, 07,5%. A nossa taxa de conclusão do Ensino Secundário até aos 20-24 anos de idade foi de 47,2% em 2003; a deles foi de 88,3%. A taxa da população adulta (entre os 25-64 anos de idade) que completou o Ensino Secundário foi, para Portugal, 09%; para eles foi de 13,9%. A taxa de aprendizagem ao longo da vida (entre a população de 25-64 anos que participou em acções de educação/formação nas quatro semanas anteriores ao inquérito do Eurostat) foi, para nós, de 03,6%; para eles, foi de 05,6%. Estão incluídas neste estudo também os dados referentes aos futuros Estados-membros da Bulgária e da Roménia.

Havia então razão suficiente para as diferenças de atitudes nos festejos do alargamento. E razão de sobra para um ataque apopléctico no meio escolar português por este valente pontapé no fundo das calças de todos nós: de súbito, a Europa ficou mais rica no saber e Portugal ficou a correr desesperado à procura de gente minimamente suficiente e competente até para se governar.

Que se guarde quem administra, quem ensina, ou quem se diz encarregado de educação. Porque não constam destes registos as lusas passagens de ano por arrastamento, por “empinamento”, ou por pressão burocrática de “obra feita”, ou pela chantagem da justificação documental do “porque não”. O proteccionismo, o paternalismo, o facilitismo não levam a lado nenhum: não desmamam os jovens; não os educam para o mérito; nem os preparam ao saber para ser e ter. Assim, quando a vida endurece lá mais adiante, sentem enorme realização quando conseguem fechar as universidades a cadeado para, sem terem que ir às aulas, passarem de ano e tirarem canudo!

Mas, para além deste súbito enriquecimento da União que, também de súbito afunda o nosso empobrecimento, há uma outra face pedagógica da nova realidade europeia: a necessidade do alargamento do saber. Já não será possível contentarmo-nos com o estudo das línguas estrangeiras tradicionais. Nem com o estudo sumário da história do espaço europeu. Nem com o estudo abstracto de meia dúzia de questões filosóficas desligadas do seu berço histórico e geográfico. Nem com o estudo geral de questões científicas de laboratório às escuras do que, de novo e onde, neste espaço europeu se anda a fazer – seja nas ciências exactas seja nas tecnologias. Para podermos correr, concorrer, descobrir um nicho vazio e… produzir, claro!

Foi um imigrante, major do exército russo, quem me veio ajudar a limpar o quintal no outro dia, já que mais ninguém da parvónia queria fazer aquele tipo de trabalho. Ora é aí mesmo que está a nossa desgraça: julgarmos ter estatuto de “heróis do mar”, mas sem o encargo de remar! Venha lá o pontapé no fundo das calças – para nos mexermos!
 

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