A
angústia de não ter respostasPor José Poças
Quando entramos num dos edifícios da Universidade de Hamburgo, na Alemanha, deparamo-nos com uma longa carpete azul na qual, em dourado, está escrito em 43 línguas a frase latina Veritas Filia Temporis, a «verdade é filha do tempo». Esta frase, com uma longuíssima história na cultura ocidental, teve origem na compilação Noctes Atticae, do romano Aulio Gélio e adapta-se perfeitamente ao tempo que vivemos. O que hoje é verdade, amanhã pode não o ser, fruto de obscuros interesses políticos e económicos.
Os nossos pontos de referência da cultura ocidental, que já foram pontes que
atravessávamos com toda a segurança, assemelham-lhe hoje a simples pedras que
nos permitem atravessar ribeiros em equilíbrios cada vez mais instáveis, com o
risco, cada vez mais evidente, de cair na água e não conseguirmos chegar à outra
margem.
Será que as guerras são muletas para falsos paralíticos? Que não haverá guerras
justas?
Certo é que hoje nos deparamos com uma nova realidade, a existência de um grupo terrorista multinacional, que confronta o mundo com um novo tipo de ameaça. O terrorismo passou a ser um instrumento global para combater o Ocidente. O objectivo do fundador da Al Qaeda, Abdullah Azzam, foi a criação de «uma vangarda revolucionária que tomasse o poder nos países muçulmanos». Quando Osama Bin Laden assumiu a liderança do movimento, após a morte de Azzam, em 1989, acrescentou dois novos elementos à estratégia - as revoluções seriam necessariamente violentas e a luta teria de ser alargada ao Ocidente, em especial aos Estados Unidos.
Contudo, não é sobre essa ameaça que vos quero falar, ou sobre a invasão do Iraque, ou sobre a situação na Palestina, mas de algo muito mais próximo, que deve partir de dentro de cada um de nós. Como estamos numa escola, que deve servir para formar cidadãos conscientes e participantes, cabe aqui tirar algumas ilações sobre o mundo em que vivemos.
Mesmo os países democráticos que participaram na Segunda Grande Guerra violaram as leis da guerra e actos cometidos pelos aliados. O bombardeamento de Dresden, na Alemanha, ou a utilização da bomba atómica por duas vezes no Japão bem podiam cair na classificação de actos de genocídio. As histórias regimentais publicadas nos últimos anos na Austrália ou no Canadá revelam que a execução de prisioneiros alemães pelas tropas aliadas foi uma prática horrorosamente vulgar. Por outro lado, só quem não percebe a milenar cultura árabe é que não vê que tão indigno como torturar prisioneiros iraquianos já tinha sido o acto de revistar as mulheres por parte de soldados americanos. Tratou-se do mais profundo desrespeito pela dignidade do muçulmano, para quem a mulher só deve mostrar partes do seu corpo, incluindo o cabelo, ao seu marido.
Numa altura em que os jornais televisivos são cada vez menos informação e, cada vez mais, uma mistura de entretenimento e publicidade, vivemos num mundo em que a ignorância cada vez mais se assemelha àquilo a que Platão chamava dupla ignorância, porque não só «ignoras as coisas mais importantes», como «ignorando-as completamente, pensas sabê-las», dizia Sócrates a Alcibíades.
Ora, o que é mais temível hoje em dia é a forma que vai assumindo esta cultura
da violência. A indiferença tem consequências incalculáveis. O paradigma foi
fornecido por Auschwitz, a que se seguiram o Kosovo e outros dramas atrozes, com
assassínios, torturas e genocídios no Ruanda, na Bósnia, Camboja, Thechénia e
Tibete, por exemplo. A lista é extensa e quanto mais afastada é do nosso país
mais nos esquecemos. A maior parte das pessoas tem apenas a noção que morrem
pessoas em países muito, muito longe.
A causa profunda da cultura da morte em que vivemos é a ignorância do ser humano
e da sua dignidade. No Afeganistão, há um mês, foram mortas duas crianças pelo
crime de querer aprender a pensar. Foram mortas porque queriam frequentar a
escola.
Muito antes de Sócrates, Heráclito já criticava a maior parte dos humanos por
levarem «completamente acordados, uma vida de adormecidos» E já que estamos a
comemorar o ano de Santo Agostinho (realce para o belíssimo espectáculo em que
os alunos do CEF participaram), numa passagem das suas Confissões, este santo da
Igreja observava que «os homens vão admirar os píncaros dos montes, as ondas do
mar, a grandeza dos rios, as marés do Oceano e o movimento dos astros, mas
esquecem-se de si mesmos».
A cultura permite-nos o essencial, aquilo que dá sentido às escolhas, à
liberdade de cada um de nós. Ou seja, antes de tudo, a ética. Recorde-se um dos
pontos mais importantes da Declaração Universal dos Direitos do Homem, de 1948 -
«Reconhece-se que o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo é a
dignidade humana.»
Temos que despertar para a dignidade humana. Esta é a tarefa mais importante da educação, despertar para o que dá sentido à sua vida. Só assim poderemos respeitar os outros, as suas culturas e a maneira diferente de olhar um futuro, que é de todos e não apenas de uma civilização ocidental que se julga superior a todas as outras.