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| P. Rodrigo Santos Carvalho, director Pedagógico do CEF |
Uma das grandes tarefas e deveres da Igreja é reclamar a razão. Quando a fé e a
razão se dividem qualquer uma delas se ressente.
O conceito de Deus foi sendo afastado da sociedade e foi-se introduzindo no seu
lugar uma série de valores que se querem fazer passar como princípios da
liberdade do homem.
Como característica do homem moderno, a pressa é um factor que condiciona toda a
sua actividade. A pressa e o consumo marcam, em grande medida, o curso do dia a
dia. Para não perder tempo recorre-se aos supermercados, aos pronto-a-vestir, às
refeições pré-fabricadas...
No plano das ideias vai acontecendo o mesmo. Não temos tempo para reflectir,
para discutir, para esclarecer. Quando temos que emitir uma opinião recorremos
aos jornais, revistas, às ideias postas a correr diariamente. Vai faltando o
estudo aprofundado, a procura de princípios e valores que fazem parte da nossa
história pessoal e colectiva. Não nos apercebemos que hoje existe uma corrente
forte que põe a circular ideias, tantas vezes adulteradas, e nós, incautos,
baseamos as nossas opiniões sobre essas ideias porque nos são apresentadas pelos
meios de comunicação social. Quantas vezes a argumentação das nossas conversas é
mesmo: mas eu vi na televisão, ou li no jornal. Quando não nos preocupamos em
esclarecer e aprofundar as razões acabamos por aceitar aquilo que nos vendem.
Será que não nos damos conta do perigo em que nos encontramos? Não é altura de
começarmos a exigir mais seriedade, mais contenção, mais respeito e não tanta
confusão. Afinal, liberdade será vender “gato por lebre”? Não terá que existir
respeito por tudo aquilo que faz parte da nossa história e que nos caracteriza
como povo?
Com alguma frequência ouvimos dizer que “numa sociedade pluralista como a nossa
é inadmissível e antidemocrático pretender impor as próprias convicções aos
outros, o que significa que não se pode legislar segundo as normas da moral
cristã”. Certamente que vivemos numa sociedade plural e democrática e podem e
devem aparecer divergências. Uns defenderão as normas e princípios próprios das
suas convicções e outros, que os não conhecem ou não os seguem, lutarão por
outros princípios. Até aqui estamos de acordo. Mas é aqui que aparece o engano
dos que se apelidam de “laicos”. A sua argumentação que nos vai iludindo é esta:
como ninguém pode ser obrigado a seguir as convicções religiosas dos outros,
vamos escolher um caminho neutro. Como não podemos chegar a um acordo vamos
prescindir desses princípios e seguir outros. Eis aqui o erro em que nós caímos.
Certamente que nós crentes não podemos aceitar, de modo nenhum, este pluralismo
truncado segundo o qual já se dá como dado adquirido o não seguimento dos
valores cristãos. Mas será que por seguir as suas convicções religiosas o
cristão é menos cidadão que os outros? E se tem os mesmos direitos não deve
aportar a essa sociedade, que é a sua, os valores que emanam das suas próprias
convicções, e que só a enriquecem?
Parece ter razão quem afirma que estes argumentos só valem para negar aos
cristãos o direito de exigir que se tenham em conta os seus valores, as suas
tradições, enquanto que se permite, aos não crentes, manter arbitrariamente e
sem necessidade de justificação as suas posições.