
Profissão de fé clarividente e mordaz, a intervenção do escritor uruguaio EDUARDO GALEANO no 50º aniversário do Le Monde diplomatique, a 8 de Maio de 2004.
1
Do ponto de vista do mocho, do morcego, do boémio e do ladrão, o crepúsculo é a
hora do pequeno-almoço.
A chuva é uma maldição para o turista e uma boa notícia para o camponês.
Do ponto de vista dos autóctones, o que é pitoresco é o turista.
Do ponto de vista dos indígenas das ilhas Caraíbas, Cristóvão Colombo, com o seu
barrete enfeitado com penachos e a sua capa de veludo escarlate, era um papagaio
de um tamanho nunca visto.
2
Do ponto de vista do Sul, o Verão do Norte é o Inverno.
Do ponto de vista da minhoca, um prato de esparguete é uma orgia.
Onde os hindus vêem uma vaca sagrada, outros vêem um hambúrguer de grandes
dimensões.
Do ponto de vista de Hipócrates, Galeno, Maimónides e Paracelso, havia uma
doença chamada indigestão, mas não uma doença chamada fome.
3
Do ponto de vista do Oriente do mundo, o dia do Ocidente é a noite.
Na Índia, os que andam de luto vestem-se de branco.
Na Europa antiga, o preto, cor da terra fecunda, era a cor da vida, sendo então
o branco, cor dos ossos, a cor da morte.
Segundo os velhos sábios da região colombiana de Chocó, Adão e Eva eram pretos,
tal como eram pretos os seus filhos Caim e Abel. Quando Caim matou o irmão com
uma paulada, a cólera de Deus trovejou. Perante a fúria do Senhor, o assassino
empalideceu de culpa e medo, e tanto empalideceu que acabou por ficar branco até
ao fim dos seus dias. Nós, os brancos, somos todos filhos de Caim.
4
Se os Santos que escreveram os Evangelhos tivessem sido Santas, como se teria
passado a primeira noite da era cristã?
São José, teriam contado as Santas, estava mal disposto. Naquele presépio, onde
o recém-nascido Jesus resplandecia no seu berço de palhinhas, era ele o único
carrancudo. Todos sorriam: a Virgem Maria, os anjinhos, os pastores, as cabras,
a vaca, o burro, os magos que tinham vindo do Oriente e a estrela que os guiara
até Belém. Todos sorriam, menos um. São José, soturno, murmurava: «Eu queria uma
menina.»
Vai-se um milénio, chega logo outro.
O tempo ri-se dos limites que para ele inventamos com vista a acreditar que nos
obedece; mas o mundo inteiro comemora e teme essa fronteira.
A época mostra-se propícia aos oradores empolgados pelo ardor das palavras que
andam por aí a discorrer sobre o destino da humanidade e aos porta-vozes da
cólera de Deus que anunciam o fim do mundo e a desintegração geral — enquanto o
tempo, de bico calado, prossegue a sua caminhada ao longo da eternidade e do
mistério.
Para ser franco, ninguém resiste a tal coisa: por muito arbitrária que seja uma
data, todos sentem a tentação de perguntar a si mesmos o que serão os tempos
vindouros. Mas quem pode sabê-lo? Temos uma única certeza: já somos pessoas do
século passado e, mais ainda, do milénio que Deus haja.
Não podendo embora adivinhar o que a época futura há-de ser, temos pelo menos o
direito de imaginar o que queremos que ela seja.
Em 1948 e em 1976 as Nações Unidas fixaram uma longa lista dos direitos do
homem; mas a humanidade, na sua imensa maioria, tem apenas o direito de ver,
ouvir e calar-se.
E se começássemos a exercer o direito, nunca proclamado, de sonhar? E se
delirássemos durante alguns instantes?
Vamos pôr os nossos olhos para além da infâmia, de modo a descortinar um outro
mundo possível. Um outro mundo
• onde o ar esteja isento de qualquer veneno que não decorra dos temores humanos
e das paixões humanas;
• onde, nas ruas, os automóveis sejam esmagados pelos cães;
• onde as pessoas não sejam conduzidas pelo automóvel, nem programadas pelo
computador, nem compradas pelo supermercado, nem vistas pela televisão;
• onde o televisor deixe de ser o membro mais importante da família, passando a
ser tratado como o ferro de engomar ou a máquina de lavar;
• onde as pessoas trabalhem para viver em vez de viverem para trabalhar;
• onde se inclua no Código Penal o delito de estupidez, delito esse cometido
pelos que vivem para possuir ou para ganhar, em vez de viverem, muito
simplesmente, para viver, tal como o pássaro canta sem saber que canta e a
criança brinca sem saber que brinca;
• onde não se prendam os jovens que se recusem a fazer o serviço militar, mas
sim os que queiram fazê-lo;
• onde os economistas deixem de chamar nível de vida ao nível de consumo,
deixando de chamar qualidade de vida à quantidade de coisas;
• onde os chefes de cozinha já não pensem que as lagostas adoram ser fervidas
vivas;
• onde os historiadores não pensem que os países ficam deleitados quando são
invadidos;
• onde os políticos não julguem que os pobres se sentem encantados por andarem a
ser -sustentados com promessas,
• onde a solenidade deixe de acreditar que é uma virtude e ninguém leve a sério
o indivíduo incapaz de se rir de si mesmo;
• onde a morte e o dinheiro percam os seus poderes mágicos e o falecimento ou a
fortuna não transformem qualquer canalha num homem cheio de virtudes;
• onde ninguém seja considerado herói ou imbecil por fazer o que pensa ser justo
em vez de fazer o que mais lhe convém;
• onde o mundo já não esteja em guerra contra os pobres, mas contra a pobreza, e
a única solução da indústria de armamento consista em abrir falência;
• onde o alimento não seja uma mercadoria e a comunicação um comércio, pelo
facto de o alimento e a comunicação serem direitos humanos;
• onde ninguém morra de fome porque ninguém morre de indigestão;
• onde as crianças da rua deixem de ser tratadas como lixo, por ter deixado de
haver crianças da rua;
• onde as crianças ricas deixem e ser tratadas como se fossem dinheiro, por ter
deixado de haver crianças ricas;
• onde a educação não seja o privilégio daqueles que a podem pagar
• onde a polícia não seja a maldição dos que a não podem comprar;
• onde a justiça e a liberdade, irmãs siamesas condenadas a viver separadas,
sejam de novo reunidas e passem a andar ombro a ombro;
• onde uma mulher negra seja presidente do Brasil e uma outra mulher negra seja
presidente dos Estados Unidos; onde uma índia governe a Guatemala e uma outra o
Peru;
• onde, na Argentina, as loucas da Praça de Maio sejam um exemplo de saúde
mental, por terem recusado o esquecimento no tempo da amnésia obrigatória;
• onde a Santa Madre Igreja corrija os erros das Tábuas de Moisés e o sexto
mandamento ordene que se festeje o corpo;
• onde uma mulher negra seja presidente do Brasil e uma outra mulher negra seja
presidente dos Estados Unidos; onde uma índia governe a Guatemala e uma outra o
Peru;
• onde, na Argentina, as loucas da Praça de Maio sejam um exemplo de saúde
mental, por terem recusado o esquecimento no tempo da amnésia obrigatória;
• onde a Santa Madre Igreja corrija os erros das Tábuas de Moisés e o sexto
mandamento ordene que se festeje o corpo;
• onde a Igreja dite um outro mandamento que Deus tinha esquecido: «Amarás a
Natureza, de que fazes parte»;
• onde os desertos do mundo e os desertos da alma sejam reflorestados;
• onde se deposite esperança nos desesperados e os perdidos sejam reencontrados,
por haverem sido eles que de tanto esperar desesperaram e de tanto procurar se
perderam;
• onde sejamos compatriotas e contemporâneos de todos quantos quiserem a justiça
e a beleza, independentemente dos sítios onde tenham nascido e do tempo em que
hajam vivido, não se atribuindo importância nenhuma às fronteiras da geografia
ou do tempo;
• onde a perfeição continue a ser o enfadonho privilégio dos deuses, mas onde,
neste mundo insano e perdido, cada noite seja vivida como se fosse a última e
cada dia como se fosse o primeiro.
(Tradução de Júlio Henriques)
Este texto será incluído no volume Sens dessus dessous, publicado em Setembro de 2004 na editorial Homnisphêres (distribuição Co-Errances. 45, Rue d’Aubervilliers, 75018 Paris).
Edição portuguesa: De pemas para o ar,
Caminho, Lisboa, 2002