Depois eu conto…
Shakespeare põe na boca de Ricardo II a seguinte afirmação - «E a estúpida, a
insensível, a estéril ignorância deve servir-me de carcereiro». Neste país,
transformado em Quintas de Famosos à força de os vermos na televisão a
trabalharem pouco e pensarem ainda menos, cada vez faz mais sentido a reflexão
de Zezé, na Conversa da Treta : «Tu e o cérebro que vive na tua cabeça são dois
seres muito estranhos um ao outro».
Submetidos como estamos ao crescente império de um verdadeiro “ruído visual”,
vemos, neste sentido, cada vez menos. «O Vazio que não falta», segundo a
expressão de Estragon em À Espera de Godot, parece duplo, afectivo e
intelectual, em simultâneo, engendrando o tédio e a profunda carência de
motivação. As novas tecnologias, quando mal assimiladas, são acompanhadas pela
perda de experiência, de contacto com o sensível e com o real concreto, pela
maior passividade e apatia, pela renúncia à própria experiência de imaginar e
pensar, que, por exemplo, a leitura exige.
Santo Agostinho, nas suas Confissões, já punha o dedo na ferida ao referir que
«a memória, a atenção e a expectativa, ou seja, as três tensões da alma» têm de
se unir para constituir o tempo na sua forma acabada, a consciência.
Possivelmente não estarei ainda totalmente de acordo com George Steiner, quando
este pedagogo afirma que os estudos são hoje, na sua maioria, uma «planned
amnesia» (uma «amnésia planificada»). Já não posso dizer o mesmo em relação a
Michel Serres e Edgar Morin quando estes autores se referem ao «desastre
educativo global» das sociedades contemporâneas, concluindo que, de forma geral,
«os nossos ganhos inusitados de conhecimento pagam-se em ganhos inusitados de
ignorância».
Mas para que é que estou a cirandar à volta deste tema, já tão banalizado, da
crise da educação? Estamos quase sempre a falar do barco que, no meio da
tempestade, se afunda ou encontra um porto salvador, ajudado ou não por um
rebocador. O estranho é falar-se tão pouco do barco e tanto do mar. Será que
também não haverá culpa no barco? E onde estão os seus construtores?
António Lobo Antunes, na sua crítica mordaz, afirma, no Livro de Crónicas, que
«preferimos escolher, com a ementa à vista, o prato a que nos habituámos, o que
explica o motivo de o medíocre ter reduzido Portugal a uma paróquia de
província». A verdade é que nos ensinaram a viver com os outros como se
fôssemos parasitas, sempre à espera que nos digam como é a vida e que nos dêem o
pão, a água, a alegria e a felicidade, sem muito esforço e menos preocupação.
Como educadores devemos visar sempre o equivalente do pepaideumenos («o ser
humano cultivado»), mas esperar que também os barcos, leiam-se jovens, e os
construtores, leiam-se pais, saibam lutar pelo direito à inquietação, que
suponho ser a diferença entre a realidade e os projectos sonhados. A história do
homem é (ou devia ser) a das suas utopias, ou seja, a da sua permanente
insatisfação. A relação estreita entre o que somos e a oportunidade de sê-lo.
Entrar a tempo. E viver a tempo.
Cheguei a uma altura da vida em que a experiência me ensinou que alguma coisa
começa na nossa vida quando tomamos consciência de que, possivelmente, no fundo,
somos únicos e que isso é necessário para que a aventura com os outros não fique
condenada ao fracasso. Nessas alturas, temos de ter uma imensa vontade de nos
olharmos por dentro para compreender e pôr em ordem as coisas que por lá andam
em desalinho.
Pergunto-me se haverá alguém consciente que chegue ao fim da vida convencido de
que fez tudo o que deveria ter feito. O projecto humano é para ser vivido na
Terra e aquilo que não for sentido agora não o será depois.
Vocês, jovens, um dia vão descobrir que viver é um treino e uma aprendizagem,
cheia de interrogações, de angústias, de desalentos, mas também de grandes
alegrias. De certo modo, somos vítimas da nossa liberdade mas ainda bem que a
temos: sentimos, ao mesmo tempo, a nossa impotência e a nossa responsabilidade
perante o rumo que escolhemos. É um exercício de meter no possível os nossos
sonhos, os nossos desejos e as nossas ambições.
Depois eu conto. Agora estou muito ocupado a assobiar no escuro…