Depois eu conto…


«Depois eu conto-lhe histórias só dos homens
E ele sorri porque tudo é incrível.»

 
Fernando Pessoa — VIII Poema de O Guardador de Rebanhos
 
Prof. José Manuel Poças


Shakespeare põe na boca de Ricardo II a seguinte afirmação - «E a estúpida, a insensível, a estéril ignorância deve servir-me de carcereiro». Neste país, transformado em Quintas de Famosos à força de os vermos na televisão a trabalharem pouco e pensarem ainda menos, cada vez faz mais sentido a reflexão de Zezé, na Conversa da Treta : «Tu e o cérebro que vive na tua cabeça são dois seres muito estranhos um ao outro».
Submetidos como estamos ao crescente império de um verdadeiro “ruído visual”, vemos, neste sentido, cada vez menos. «O Vazio que não falta», segundo a expressão de Estragon em À Espera de Godot, parece duplo, afectivo e intelectual, em simultâneo, engendrando o tédio e a profunda carência de motivação. As novas tecnologias, quando mal assimiladas, são acompanhadas pela perda de experiência, de contacto com o sensível e com o real concreto, pela maior passividade e apatia, pela renúncia à própria experiência de imaginar e pensar, que, por exemplo, a leitura exige.
Santo Agostinho, nas suas Confissões, já punha o dedo na ferida ao referir que «a memória, a atenção e a expectativa, ou seja, as três tensões da alma» têm de se unir para constituir o tempo na sua forma acabada, a consciência. Possivelmente não estarei ainda totalmente de acordo com George Steiner, quando este pedagogo afirma que os estudos são hoje, na sua maioria, uma «planned amnesia» (uma «amnésia planificada»). Já não posso dizer o mesmo em relação a Michel Serres e Edgar Morin quando estes autores se referem ao «desastre educativo global» das sociedades contemporâneas, concluindo que, de forma geral, «os nossos ganhos inusitados de conhecimento pagam-se em ganhos inusitados de ignorância».
Mas para que é que estou a cirandar à volta deste tema, já tão banalizado, da crise da educação? Estamos quase sempre a falar do barco que, no meio da tempestade, se afunda ou encontra um porto salvador, ajudado ou não por um rebocador. O estranho é falar-se tão pouco do barco e tanto do mar. Será que também não haverá culpa no barco? E onde estão os seus construtores?
António Lobo Antunes, na sua crítica mordaz, afirma, no Livro de Crónicas, que «preferimos escolher, com a ementa à vista, o prato a que nos habituámos, o que explica o motivo de o medíocre ter reduzido Portugal a uma paróquia de província». A verdade é que nos ensina­ram a viver com os outros como se fôssemos parasitas, sempre à espera que nos digam como é a vida e que nos dêem o pão, a água, a ale­gria e a felicidade, sem muito esforço e menos preocupação.
Como educadores devemos visar sempre o equivalente do pepaideumenos («o ser humano cultivado»), mas esperar que também os barcos, leiam-se jovens, e os construtores, leiam-se pais, saibam lutar pelo direito à inquietação, que suponho ser a diferença entre a realidade e os projectos sonhados. A história do homem é (ou devia ser) a das suas utopias, ou seja, a da sua permanente insatisfação. A relação estreita entre o que somos e a oportunidade de sê-lo. Entrar a tempo. E viver a tempo.
Cheguei a uma altura da vida em que a experiência me ensinou que alguma coisa começa na nossa vida quando tomamos consciência de que, possivelmente, no fundo, somos únicos e que isso é necessário para que a aventura com os outros não fique condenada ao fracasso. Nessas alturas, temos de ter uma imensa vontade de nos olharmos por dentro para compreender e pôr em ordem as coisas que por lá andam em desalinho.
Pergunto-me se haverá alguém consciente que chegue ao fim da vida convencido de que fez tudo o que deveria ter feito. O projecto humano é para ser vivido na Terra e aquilo que não for sentido agora não o será depois.
Vocês, jovens, um dia vão descobrir que viver é um treino e uma apren­dizagem, cheia de interrogações, de angústias, de desalentos, mas também de grandes alegrias. De certo modo, somos vítimas da nossa liberdade mas ainda bem que a temos: sentimos, ao mesmo tempo, a nossa impotência e a nossa responsabilidade perante o rumo que escolhemos. É um exercício de meter no possível os nossos sonhos, os nossos desejos e as nossas ambições.
Depois eu conto. Agora estou muito ocupado a assobiar no escuro…