As duas fotos que ilustram esta “confissão” - toda num só parágrafo! - foram tiradas na antiga Escola da Moita Redonda aquando das Festas que comemoraram o IV Centenário da Capela de S. Luzia (8 de Dezembro de 2004).

A MINHA ESCOLA
PARA QUE SAIBAS!

Por Armando Marques da Silva

A minha escola…Memórias vivas, ânimo grato! (O contexto é de meados do século XX). A Elementar, obra linda do Salazar, até tinha lareira! Chegávamos lá a pé descalço, descapotado e ensanguentado, por vezes, o dedo grande, ao “enceparmos” nalguma pedra. A mala era uma bolsa, para a “pedra”, o ponteiro e o manual oficial (recordo o do prof. Janeiro Acabado). Havia ensino rigoroso com reguada para quem não sabia e para quem se “desportava”. O Melias Melembes, que era totalplégico, era “rõe” e apanhava de morte e paixão. Eu, muito raramente. Como tinha ortografia cuidada, tinha o cargo de “ditador”, pois que fazia ditados à turma e corrigia-os, entregando tudo marcadinho à professora, ocupada com outras turmas. O exame da 3.ª Classe foi bem, não sem temor e tremor, resultado das aprendizagens cantaroladas (ou “alcoradas” cá fora, em cima do muro de cerca: a tabuada, a história de Portugal, os rios e seus afluentes (de todo o Portugal continental e colonial), as linhas férreas (“Linha do Norte! Lisboa, Setil, Santarém, Entroncamento, Lamarosa, Alfarelos, Coimbra, Pampilhosa, Aveiro, Espinho, Gaia, Porto”), ainda reza o meu subconsciente. O da 4.ª foi muito bem e uma bela aventura: pela primeira vez viajei para fora da freguesia até Pombal, 21 quilómetros a cavalo da velha bicicleta do meu pobre pai a vencer ladeiras e fundos vales. E ainda ganhei o primeiro fato de alpaca e um prato de carneiro numa pensão, para prémio – que luxo! Depois veio o Seminário, quer dizer, sete anos de deserto (florido). Era só rezar e estudar. Só não ficava sábio quem não queria. Levantar às 6: higiene acompanhada da recitação ambulante do “Veni Creator Spiritus”, logo a chatear o Deus da sabedoria durante o “silêncio rigoroso” da noite que terminava. A seguir, orações da manhã e meia hora de meditação na gélida capela (alguns caíam para o lado com sono). Missa cantada ou rezada (3 a seguir no dia dos fiéis defuntos!). Meia hora de estudo para as avaliações diárias. Finalmente, chegava o pequeno almoço – um quarto de pão trigueiro com uma malga de café com leite, com nata ao de cima, adoçado com sal, tudo em silêncio sagrado para aguentar o leitor oficial de turno da De Imitatione Christi, liber…caput…, com serviço de mesa garantido pelos colegas refeitoreiros. Ao Tu autem…chegava a trovoada do arredar de bancos, a forma feita em silêncio, e a liberdade do recreio: 15 minutos de retrete, uma corrida, um jogo de macaca apressado e…o toque da “cabra” (ou sineta) para as aulas das 9 às 12. Começava a luta. Era o latim do Venturi com o De Bello Gallico para analisar e traduzir; o Exegi monumentum aere perennius, o Titire, tu patule recubans sub tegmine fagi. Era o Português do Peirone com toda a espécie de composição, análise literária e concursos de memória (“Lá vai a nau Catrineta que tem muito que contar / Ouvide agora senhores uma história de pasmar…” ou “Na mão de Deus, na Sua mão direita / repousa afinal meu coração” , ou ainda “As armas e os vagalhões assinalados…” (estropiavam alguns malandros), com umas visitas do Vitorino Nemésio ou do Chico Costa. Era o “Kapton” seco e velhíssimo, sem sinal algum de dentes, a matematizar tudo à Goedel e a empurrar trigonometria “Isto nem na universidade se ensina…vá, vai à pedra…anda, tu sabes...”. Era o génio “ÀFilipe” a elucubrar mais literatura. Ou o “Massa Específica” a tentar os limites da experimentação Física que não vinha no manual, rebentando tubos de ensaio e os vidros das janelas (“Oh, esta num deu!”). Ou outra vez o Peirone com toda a História da Filosofia e o martelo dos Sofistas: “Pánton chrematon metron o anthropos estí”. Ou o temível Morando com o seu grego, de cor e salteado, Ó korax nosón efe té metrí…, todas as fábulas de Esopo, pedaços de Evangelho “Ego eimí o’ poimén o kalòs… e excertos litúrgicos “Chaire Maria, checharitoméne, ó Kyrios meta sú…, migas de Aristóteles e migalhas de Heródoto, para traduzir, fazer análise gramatical e decorar. E quem não tirasse positiva de manhã, ia comer o almoço de joelhos para a frente da mesa da presidência, olaré! Mas com a consolação de ouvir, do alto pódio, um capítulo dos Evangelhos em grego, latim e português; e capítulos seguidos, até ao fim da refeição, de peças famosas… “A Cabana do Pai Tomás”; “Os Noivos” (de A. Manzoni), todas as léguas submarinas e luas do Júlio Verne, o Robinson Crusoé, por Daniel Defoé, os artigos do jornal Novidades e d’O Primeiro de Janeiro, etc., etc., etc. – para andarmos informados e satisfazermos a enorme curiosidade! É que havia tempo para pensar, estímulo ao pensar, e net ainda não tinha sido tecida. Quando a televisão chegou, a preto branco em RTP, foi só para a administração, e baptizámo-la de “Raios Te Parta”. O rádio era para ocasiões solenes. Ligava-se no refeitório dos Padres e nós, à janela e aos encontrões, queríamos ouvir uma mensagem do Pio XII, uma alocução do cardeal Cerejeira, um discurso do Salazar, um solilóquio do Américo Tomás ou um adrenalizado relato de futebol do Artur Agostinho... passa ao Peiroteu,e ele não desliga, finta, torce à direita, torce à esquerda, avança, arramata..gô! É golo! Gooooooooooolo do Sporting! (que já então era bom). Havia jogos Olímpicos caseiros (ainda lá estão as placas de mármore). Havia Jogos Florais todos os anos pela Primavera, com concursos de sabedoria, composição e declamação. Havia uma caixa do saber, onde lançávamos perguntas científicas e culturais complicadíssimas – a De Omni Re Scibili (De Tudo o Que se Possa Saber) – que sempre dava resposta publicada. Era preciso estar na onda, porque não havia equiparação de estudos…e fomos o Vilarinho e eu as primeiras cobaias a fazer exame nacional do 5.º ano de Liceu no Rodrigues Lobo em Leiria, sob os apupos Quá, Quá, Quá, dos estudantes leirienses, pois que íamos de fato preto! E passámos!

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