
Prof.
Neves Martins
Nos últimos anos,
diversos Professores do CEF concluíram o Doutoramento ou Mestrado nas
disciplinas em que já eram licenciados. O InforCEF regozija-se com os novos
Mestres e Doutores que enriquecem a nossa Escola e propõe-se apresentá-los aos
seus Leitores. A escolha de começar pelo mais recente é puramente casual.
Trabalho elaborado pelas alunas Carolina Oliveira Diana Santos
e Sandra Gonçalves, 12ºI

Na área de especialização em Literatura Brasileira e sob a orientação da Professora Doutora Vania Chaves, este prestigiado docente do CEF defendeu no pretérito dia 14 de Janeiro, na sala D. Pedro V da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, a sua dissertação de mestrado “José de Alencar: nova viseira, novo elmo, outras guerras”.
Ao júri, em que foi arguente principal a Professora Doutora Maria Aparecida Ribeiro da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, uma das maiores especialistas na obra do autor, presidiu o doutor Alberto de Carvalho, destacado docente do Departamento de Literaturas Românicas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
Finda a arguição, que se prolongou por cerca de duas horas, o referenciado júri, integrado também desde o início pela Professora Doutora Vania Chaves, orientadora oficial deste mestrado, resolveu por unanimidade atribuir ao candidato a classificação final de Muito Bom.
Antes de iniciarmos breve colação com o novo mestre, impor-se-á, certamente, o estabelecimento de curtíssima resenha biobibliográfica sobre José de Alencar, de feição e com função vincadamente contextualizante.
Assim,
José Martiniano de Alencar nasceu em Mecejana, estado do Ceará, em 1829, e
faleceu no Rio de Janeiro, em 1877. Formado em Direito por S. Paulo e Olinda,
exerceu muito pouco a profissão de advogado, vindo a dedicar-se mais à
literatura e ao jornalismo (chegando mesmo a ser redactor-chefe do Diário do Rio
de Janeiro).
Guerra dos Mascates
A sua primeira manifestação literária veio a lume com a crítica ao poema
«Confederação dos Tamoios», de Gonçalves de Magalhães. Logo depois vieram os
seus grandes romances O Guarani e Iracema, que lhe granjearam as glórias de
maior escritor de todo o Romantismo Brasileiro.
De 1870 a 1877, José de Alencar publica, entre vários outros romances, A “Guerra
dos Mascates”, objecto de estudo da presente dissertação de mestrado do Prof.
Neves Martins.
Alencar ingressou cedo na vida política, vindo a ser deputado provincial do
Ceará e ministro da Justiça. Profundamente magoado com os excessos e as invejas
de uma critica acirradíssima, deixou a política, após ter visto o seu nome
vetado por D. Pedro II para o cargo de senador. Deprimido e muito debilitado
pela tuberculose, veio para a Europa para se tratar. Voltou ainda ao Rio, e já
muito doente, acabou por sucumbir pouco depois aos estragos dessa tísica
impenitente.
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| Desenho original de António Neves Martins, inserido na página 177 da Tese de Mestrado, com a seguinte legenda: “A flauta (não a lira, porque o próprio Orfeu se vai mudando), contrastando com a estridência do canto do galo madrugador, diz-nos que aos dias se sucedem outros dias e que cantores + ou - líricos, + ou - épicos sempre continuarão a cantar a vida que passou e a vida que se tem: homens e animais e talvez até as árvores, continuarão a dobrar-se ao poder encantatório do seu canto”. |
Colocadas de fugida estas notas sobre aspectos importantes da vida e da obra do
escritor, não pretendemos chamar o Prof. Neves Martins a segunda arguição, mas
tão somente desafiá-lo a uma pequena conversa muito familiar e informal.
1. Professor, por que razão decidiu escolher José de Alencar, um escritor
romântico brasileiro, para principal objecto de estudo da sua tese?
R: Quando, há já muitos anos folheei pela primeira vez alguns livros de José de
Alencar, imediatamente senti o reconfortante condão de ter sido tocado por uma
aura de estranha e inefabilíssima empatia. As subsequentes leituras consolidaram
em mim uma enorme admiração, não tanto pela urdidura e desfecho das histórias
romanescas, mas sobretudo pela extraordinária justeza, abundância e plasticidade
da palavra alencariana. Porque o tenho como um mestre que sempre se revisita com
prazer, porque por ele constantemente podemos aprender e apreender a eterna
novidade das palavras, decidi dedicar-lhe (creio que em boa hora) mais esta
romagem de tirocínio e culto. Cônscio do valor das aprendizagens realizadas, mas
também do muito que ficou por dizer, ainda assim alegre da partilha do meu
mícron por Mencar, considero totalmente preenchidas as minhas expectativas face
a este mestrado, que por certo funcionará para o futuro como verdadeira mola
propulsora de mais e melhor trabalho no âmbito do literário, que constantemente
se remoça nos concretos dias que vivemos.
2. A “Guerra dos Mascates” foi a obra que resolveu abordar no seu estudo.
O que é que mais o fascinou em tal escolha?
R: Sobretudo a contundente inflexão do estilo e da mundividência alencarianas
face a protótipos estereotipadamente românticos, mas também a irónica e
deliciosa metáfora de guerra que lhe subjaz na concepção: houve efectivamente
uma mudança de sentido na visão do mundo e, consequentemente, no estilo e na
linguagem do autor. Permanece o mesmo olhar de lince na observação, o mesmo
gesto cumulativo na notação de pormenores, a mesma variedade e adequabilidade
vocabular sempre exuberantes, só que as acções ora narradas deixam de ser de
altíssimo coturno e tomam-se mais imediatamente interesseiras, por vezes mesmo
mesquinhas e reles, praticadas nas casas, nas ruas, nos quintais, por uma
mascataria inculta e uma nobreza de império titubeante no meio de aspirações
independentistas vagas, mas situada nos expoentes máximos da prepotência e da
intolerância em relação aos demais sectores da sociedade pernambucana da época.
Aparece-nos um Alencar desiludido, a sentir-se prematuramente envelhecido aos
quarenta e poucos anos, mas a ousar ainda pôr a máscara (nova viseira e novo
elmo) para esgrimir o seu último combate em outras guerras, desfundamentando
habilmente as «ferroadas» detractoras de toda uma horda de críticos em crescendo
e cada vez mais agressiva.
Assina a obra sob o pseudónimo de Sênio, escudando-se sabiamente na autoridade
da velhice, ou ainda, se quisermos ver no termo uma forma sincopada de «sénior»,
mais velho, mais sábio, mais capaz, assumindo-se face aos seus opositores na
natural altivez da semântica deste riquíssimo Comparativo de Superioridade:
muito mais competente que os juniores, o sénior é, basicamente, alguém que já
ganhou, que granjeou e que mantém o prestígio granjeado. Longe ainda de depor as
armas, longe portanto da natural inércia do veterano, que, em sentido
estritamente etimológico significa «soldado reformado».
3. Qual ou quais as principais dificuldades que o assaltaram no decorrer
da elaboração desta sua tese?
R: A evidente periclitância entre os membros de uma equação em
desequilíbrio nítido: a avassaladora falta de «cronos» e a premência desgastante
de um crescendo de leituras e pesquisas a actualizar constantemente. Digamos que
o gosto de escrever foi resolvendo paulatinamente o manifesto desequilíbrio em
manifesto favor do escrevente...
4. Quanto tempo levou a escrever esta dissertação?
R: O semestre da praxe concedido pelos regulamentos académicos, mais
outro semestre de «adiamento» requerido ao Conselho Científico da Faculdade.
5. Por que motivo incluiu quadros de sua autoria nas páginas do trabalho?
R: Para mim sempre fez todo o sentido a transversalidade dos saberes, os
intertextos. Não só (tra)vesti o trabalho de cores próprias quanto de palavras,
como, por exemplo, na página 69, quando a propósito do romance histórico se diz:
«Esta literatura vai-se assim revigorando em súmulas de pequenas «pitadas» de
diferença e novidade, por vezes particularmente saborosas na inconsistência a
que chegam, como consegue, por exemplo, Miguel Medina em Além do Maar, pela
extraordinária prolepse em que, ironicamente, visualiza as aparições de Fátima.
O romancista dos tempos modernos é agora, mais que nunca, «um grumete visionário
a bordo» e a focalização ganha, drástica e inusitadamente, novos ângulos de
enfoque. E, porque também nós somos «ali duns reguengos que ficam para lá da
Cova da Iria, a caminho da vila de Ourém», dados a especulativas cogitações,
acreditamos piamente que se continuem a cumprir, num devir ainda nosso, mas
sobretudo dos nossos, as inúmeras virtualidades do chamado romance histórico, (re)vestindo
sempre roupagens novas na reescrita da História, que constantemente rejuvenesce
em cada nova geração desta incontornável saga de viver....
6. Quais as suas expectativas em relação ao futuro, depois de ter
concluído este trabalho? Pretende publicá-lo?
R: A breve trecho, e depois de resolver algumas «pendengas» existenciais
e outras do foro quotidiano, pretendo ganhar uma acalmia de base mais «nirvânica»
para poder dedicar-me também mais à literatura enquanto «auctor».
Respondendo à segunda parte da questão, os incentivos têm sido vários, sobretudo
da parte da Doutora Vania Chaves, querendo inclusivamente que o trabalho
concorra a prémios literários em espaço brasileiro. Por ora tudo são hipóteses
cuja formulação definitiva o tempo certamente irá trazer...