Meditação
em dor
maior
José
de Jesus Amaro
Depois dos tremores, terrores e horrores. Depois das vítimas, dos desaparecidos
e dos incontactáveis. Depois das tempestades, dos maremotos e das ondas
gigantes. Há que pensar e que olhar a dor. De hoje a um ano será outra vez 26 de
Dezembro. O natal já terá passado, o tal pai esvaziado o saco e o menino
continuará escondido no fundo da gruta. E os 365 dias que passaram foram um
exame à esperança e à dor que nos foram «oferecidas» pela natureza para sermos
pessoas melhores. A bondade que deixámos aflorar é esplendor e grandeza, pois
nela brilhou a nossa divindade. Se aproveitarmos as «oportunidades» que a
natureza nos dá tornar-nos-emos verdadeiros filhos do universo e benfeitores de
humanidade. Basta, para tal, recorrermos ao conselho das estrelas e dos sábios e
aos caminhos do sol.
Agradeçamos a deus o que somos e por aquilo que, com a sua ajuda, poderemos vir a ser, pois um filho do universo nunca está inteiramente satisfeito consigo próprio e procura ir sempre além da tolerância: ama os que sofrem, os velhos, os fracos, os frágeis e os debilitados mas, sobretudo, os que ninguém ama. Ama os amigos e até … os inimigos a exemplo do menino da gruta. Este amor traduz-se em não alimentar ódios e rancores mesquinhos e perversos, que tudo envenenam e consomem. E um dia ele dará lugar ao esquecimento e à ternura, símbolos maiores de nobreza e de carácter.
Os filhos da luz não têm inimigos, porque cultivam a cordialidade, que leva à
serenidade e à alegria de viver.
Movem-se na transparência, trabalham e respeitam o próximo e acolhem o distante.
Essa prática faz deles seres humanos felizes a bem com o mundo, com a vida, com
os outros e com deus.
Lutam
pelo pouco e chegam ao suficiente. Lutam pelo suficiente e alcançam o muito.
Lutam pelo muito e abraçam deus. Não o muito dos bens e dos meios, mas o da
ternura e do amor. Estes nunca ficam atrás dos teres, dos saberes e dos poderes,
pois por mais que estes sejam sonhados e admirados nunca deixam de ser
relativos, pois só deus e o amor são absolutos, e carregados de sentido.
Os filhos do universo enternecem-se com as palavras dos poetas e cultivam o prazer e o riso. Nunca renunciam à festa, ao humor e à inteligência. E quando se encontram menos bem, porque os dias são muitos e cansativos, tristes e nebulosos… lembram-se que há sempre quem possa estar em situações mais difíceis. Só cedem às lágrimas quando se deixam tocar pela dor dos outros, como aconteceu nos dias a seguir ao natal do menino de 2004. Sabem que sozinhos não são nada, mas com apenas um outro são muitos, porque assim é possível a fraternidade, a alegria e a festa. Festa que deus quer, apoia e promove.