A carta que nunca leste

Alexandra Marques, 10ºE

Lá fora chove torrencialmente, talvez seja por isso que tenha pensado no que tem acontecido, nos últimos tempos. Perdi uma das coisas a que dava mais valor: a amizade, não de apenas uma colega, mas sim de uma amiga que era como se fosse uma irmã.

Neste momento resta recordar as memórias e os momentos que passámos juntas. Ela já não se encontra entre nós, encontra-se no noutro mundo, para além da vida. Neste instante estou arrependida pois não sei se lhe cheguei a dar o devido valor, ou apenas dizer o que ela significava para mim.

Ontem recebi uma carta. Carta essa que lhe envie há um ano atrás, mas que, andou perdida por aí. Na mesma, explicava tudo o que julgava andar a passar-se com a nossa grande amizade e o que sentia. A carta era a seguinte:


24 de Janeiro de 2004
Querida Ana
Tenho muito que te dizer, mas não sei por onde começar. Mas que tal pelo início? Desde há algumas semanas, que não sei o que se passa contigo. Andas distante, não me apoias, não me ouves, entre muitas outras coisas. Sempre nos dêmos como irmãs inseparáveis, agora acho que nem amigas.
Estive a pensar e admito que errei ontem à tarde, quando discutimos. Não fui justa contigo!
Desculpa!!! Mas acho que também não andas a agir da forma mais correcta para comigo em várias alturas. Mas errar é humano e a vida é constituída por erros. Por isso queria pedir-te que esqueças o que se passou, ou seja, que ponhas uma pedra sobre o assunto e que continuemos a ser as grandes amigas que éramos.
Resta-me de novo voltar a pedir-te mil e uma desculpas, pois tu és muito importante para mim, foste a melhor amiga que alguma vez podia ter encontrado. Adoro o teu sorriso pois transmite-me boa disposição e como tal eu adoro-te muito, muito! Nunca te esqueças disso, pois é pura verdade…


Agora já é tarde demais, para ela ler a carta, pois já não está entre nós, apenas no nosso coração e na memória. Tenho pena, porque ela nunca chegou a saber o que significava afinal para mim e que, acima de tudo, eu adorava-a tal como ela era.

Esta foi a carta que gostaria que ela lesse, mas que nunca leu, nem vai ler.

Por isso, se têm alguma coisa a dizer a alguém, digam-no, porque a vida é curta e podem a qualquer momento perder a oportunidade.


Voltar à página de índice

O fim da felicidade

A cidade acordou a chorar, o sol não se ria e a vida desaparecia.
As águas subiam a uma velocidade espantosa, os poucos habitantes da aldeia olhavam com atenção o movimento caudaloso do rio. Há varias semanas que a chuva caía sem interrupção, nos campos os animais morriam afogados, a lenha quase esgotava e o frio e a humidade instalavam-se nas casas, nas roupas e nos ossos dos habitantes.

Para comer havia somente um pouco de pão duro e nada mais.

Todos os dias o rapazinho subia à torre da capela esperando ver algum sinal de vida para além da aldeia.
Dentro de casa, as mães tentavam sossegar as crianças irrequietas. Ouvia-se ocasionalmente um ou outro movimento que significava que mais alguém morrera, vítima de doença ou fraqueza. O desespero era total, as pessoas rezavam por uma ajuda que não vinha, desesperavam em lenta agonia, do céu desciam caudais de água que tudo destruíam, a paisagem era triste, medonha, sem vida, tal como os pensamentos dos habitantes daquela aldeia cercada pelas águas, isolada do mundo, e onde a esperança morria à velocidade que o rio subia.
 

Voltar à página de índice