Uma nova perspectiva histórica sobre Fátima

Teve lugar no dia 7 de Maio a apresentação da mais recente obra do nosso colega, Prof. José Manuel Poças das Neves, “A Fátima dos inícios do século XX – A freguesia de Fátima (1900-1917)”, na presença de um vasto público que encheu uma dos maiores espaços do Hotel Fátima. Aproveitámos o ensejo para convidar o Coordenador do Ensino Secundário no CEF a falar não só desta sua obra, mas do seu mais recente percurso académico.
Em 26 de Abril de 2004, na Faculdade de Letras da
Universidade Clássica de Lisboa, fez o Mestrado em História Regional e Local,
com a dissertação “Vila Nova de Ourém na Primeira República – O conflito
político-religioso”.
Foi principal arguente D. Manuel Clemente (Bispo auxiliar de Lisboa e Professor
na Universidade Católica), compondo também o júri os professores Sérgio Campos
Matos, orientador do Mestrado, António Ventura, especialista em História
Contemporânea e Pedro Barbosa, director do Departamento de História. Foi
atribuída a classificação final por unanimidade, de “Muito Bom”, com aclamação e
louvor.
Por
que razão escolheu um tema de investigação tão específico e o que é que ele
implica?
Desenvolver uma investigação no âmbito do Mestrado de História Regional
e Local implica, à partida, um projecto que englobe vivências pessoais.
Estabelecido profissionalmente em Fátima, desde há muito me sentia atraído pela
realização de um estudo contemporâneo sobre Ourém. Não existe nenhuma
investigação cuidada sobre esta realidade da Primeira República no concelho.
Como estruturou o estudo e de que temas concretos fala na dissertação?
Num primeiro capítulo abordei, genericamente, as grandes linhas da crise
da Monarquia Constitucional, bem como as polémicas político-religiosas no final
do século XIX. Tentei compreender a evolução das relações entre o Estado e a
Igreja Católica, a emergência do anticlericalismo radical e a sua proposta de
secularização da sociedade.
Num segundo capítulo, parti da interrogativa – “Que espaço era o de Vila Nova de
Ourém?” – para abordar questões de descoberta de identidade local como zona
histórica ocupada por uma determinada comunidade.
Parte
substancialO corpo principal do trabalho foi desenvolvido num terceiro capítulo, onde procurei responder às seguintes questões:
Por outro lado, impôs-se tentar perceber quais foram as dinâmicas religiosas
no concelho e quais as cerimónias litúrgicas de forte impacto popular. No fundo,
tentei perceber o imaginário religioso. Num segundo momento, procurei também
perceber qual foi o papel da administração concelhia na sua relação com a igreja
local.
A estas temáticas relacionadas com a identidade da comunidade local, nos seus
aspectos político, cultural e social, certamente não deixou de estudar aquilo
que, neste concelho é determinante – as aparições em Fátima...
De facto, numa fase posterior, a partir de 1917, outro género de questões se
colocaram:
• Como é que as elites políticas e eclesiásticas se relacionaram com o fenómeno
das Aparições?
• Constituíram os acontecimentos da Cova da Iria, um momento significativo na
evolução das relações entre o Estado e a Igreja no Portugal contemporâneo?
• Fátima, como um dos lugares do conflito entre a Igreja e o Estado, terá
constituído um campo privilegiado de confronto de mentalidades e de concepções
de vida do inicio do século XX?
E
foi fácil responder a estas questões?
Foi um trabalho difícil de investigação, que implicou tempo e muitas
deslocações à Torre do Tombo, à Biblioteca Nacional, ao Arquivo Distrital de
Santarém, ao Arquivo Municipal de Ourém, aos arquivos das Juntas de Freguesias,
entrevistas a várias pessoas, incluindo o filho do Administrador de Ourém, etc.
15.000 Documentos
Fruto desse trabalho, acumulei cerca de 15 mil documentos e, surgiu a hipótese
de fazer um trabalho, dando a conhecer o modo de vida de uma freguesia rural,
Fátima, inserida no espaço socio-económico de inícios do século XX.
Mas ainda não falou da obra apresentada em Fátima com o patrocínio dos
Rotários que aqui mais especificamente documentamos... Estão mais ideias a
germinar, ou já na forja?...
Quis o feliz acaso que o meu desejo coincidisse com o do Rotary Club de
Fátima, e desse encontro resultou o livro A Fátima dos inícios do século XX – A
freguesia de Fátima (1900-1917), cujo lançamento foi feito no dia 7 de Maio
deste ano.
Neste momento, encontro-me a trabalhar na tese de Doutoramento em História
Regional e Local, bem como em mais dois livros. Um deles, que deverá sair para o
ano, pretende analisar uma viagem que foi feita em 1924 por um jornalista
republicano a Vila Nova de Ourém e Fátima. Descreve a sua visão pessimista e
ateia, mas dá-nos pormenores deliciosos e inéditos sobre a vida política e
social da época. Quanto ao outro livro, ainda em fase embrionária, está mais
ligado ao campo da Antropologia.