

“Era uma vez um soldado maneta e uma mulher que tinha poderes”, eis a
história do Memorial do Convento. Saramago não é só o escritor dos vocábulos
complicados, da ausência de pontuação; é também o escritor que nos conduz ao
verdadeiro sentido das palavras, que transforma muitos parágrafos numa
verdadeira sinfonia de sentimentos, que põe em questão a célebre frase de que
“uma imagem vale mais do que mil palavras”.
O amor surge nesta obra com uma pureza e simplicidade notável, no fundo com o
seu verdadeiro significado. O afecto que une Baltasar e Blimunda é
transcendente, completamente indelével, consegue fazer-nos acreditar que a
felicidade não é utopia. Complementam-se, Sete-Luas (Blimunda) era o que faltava
a Sete-Sóis (Baltasar).
Ao longo do livro, o riso mora muito perto das lágrimas. Baltasar e Blimunda
percebem que estavam destinados em pleno auto-de-fé, no qual a mãe dela seria
queimada. Unem-se, partilham projectos, sonhos, lutas e um dia desencontram-se,
Baltasar desaparece. Movida pelo desejo de voltar a estar com ele, ela procura-o
durante anos. Este intenso amor “acaba” onde começou, Blimunda encontra-o na
fogueira. A vontade de Sete-Sóis não sobe às estrelas porque sempre pertenceu a
Sete-Luas.
No meio desta união num só corpo, surge um padre que queria voar, um rei e uma
rainha que mandaram erguer um convento, o povo que ergueu esse convento, tudo
brilhantemente articulado.
Por isto tudo, gostei muito do livro, ele consegue levar-nos a pensar que o que
mais interessa é aquilo que os olhos sozinhos não conseguem ver, é aquilo que
Blimunda capturava e que nós carregamos na nossa “nuvem” tantas vezes fechada e
negra.