Talvez um dia, Amparo

Amparo vai deixar o CEF. O seu ciclo de estudos termina. Como ela, são muitas e muitos os alunos que convivem e vivem connosco, fechados nas suas conchas, incapazes de partilhar sentimentos e experiências, por causa dos modelos e padrões impostos pela sociedade. Amparo terá sucesso na profissão porque luta por objectivos, por que não fica à espera…e por que o mais importante de tudo é o factor humano.
Entretanto neste 12ºano, teve que abdicar de um baile, de uma viagem de finalistas e de muitas outras festas. Talvez um dia...Amparo! (Cristina Carvalho)
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Era uma da manhã e ainda não dormira. Lá fora a noite estendia-lhe os braços frios pela janela e com ela dançava. Imaginava-se no baile: vestido comprido e sapatos de cetim. Ela era a cinderela duma história onde não estava. Abriu os olhos e ainda conseguia ouvir a voz da mãe a tentar explicar-lhe por que razão o baile de finalistas não podia ser seu e fingiu que entendia. Baixou o olhar, inventou um sorriso e soltou um não faz mal mãe. Afinal o cetim, os brilhantes, os sapatos de tacão alto, as alcinhas nos ombros desnudados, teriam que esperar. Um dia, disse a mãe, haveria outro baile e talvez nesse dia fosse ela a levar o vestido mais bonito e o sorriso mais radiante. Um dia...
Voltou a fechar os olhos e viu. Viu o Francisco a rir, a Paula a dançar, o Renato a apaixonar-se cada vez mais pela Inês, a Joana a fingir que não gosta do Xico, a Ana a pensar que o Luís cada vez está mais giro, a Maria a cochichar com a Patrícia, os sorrisos enfeitados dos professores, gente linda e chique, a música, o brilho. E viu o Tiago. Então imaginou-se junto dele e desta vez estava ao seu lado e não na carteira atrás. Desta vez ele dava-lhe a mão. Desta vez ela não era apenas a boa aluna com quem ele só falava quando precisava dos apontamentos. Desta vez ele esquecia que ela não usa t-shirts da Mango, gangas Benetton, ténis da Nike, que não vai à Sushi aos sábados, que não acha piada ao Gato Fedorento. Esta noite ela sentia-o...mas não estava naquele baile que também devia ser seu. E ela era uma das melhores alunas da turma. E pela primeira vez sentiu raiva. Uma raiva pequenina mas que lhe doía bem fundo. Afinal ela merecia estar lá também. Merecia um vestido de princesa e sapatos a condizer. Merecia que a mãe desta vez tivesse dinheiro. Merecia não ter que fingir-se embrenhada nos textos de Português para não ouvir as colegas discutirem o baile que se aproximava. Merecia não ter que se fazer indiferente quando lhe perguntavam que vestido gostaria de levar. Merecia não ter que dizer que ir ao baile era coisa que não lhe interessava. Merecia não mentir.
Abriu de novo os olhos e reparou que já eram quase quatro da manhã. O baile já teria acabado e ela agora podia dormir. Afinal tinha sido apenas um baile. Um simples baile de finalistas que não tinha sido seu.
Amo-te mãe e um dia...quem sabe... eu seja aquela que ilumina um baile de finalistas.
(Clara Barroso)

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